Comentário do Módulo 11

Tema Geral: Gênesis

José, mestre dos sonhos

Autor: Wilian S. Cardoso

A história de José e seus irmãos marca as últimas toldot (“gerações”, “histórias”) do livro de Gênesis. Embora a narrativa principal seja sobre José, essas são as toldot de seu pai Jacó (Gn 37:2), pois, como vimos, os filhos são o fruto máximo da vida de um ser humano da perspectiva bíblica (cf. Gn 3:15). Dos capítulos 37 a 50, José se torna o protagonista da narrativa. Mesmo não sendo listado entre os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, ainda assim ele desempenha um papel de fundador do povo de Deus, visto que sua vida ocupa mais páginas no livro do que qualquer outro relato ou personagem anterior a ele.

Uma das coisas mais interessantes sobre essa narrativa é precisamente a mudança no estilo literário do autor. Ainda que isso não possa ser plenamente percebido na tradução, o texto bíblico tem características que se parecem com uma novela1, tais como a conexão entre os enredos das múltiplas narrativas que compõem a história geral, a ordem sequencial em que o enredo é desenvolvido, o deslocamento dos personagens no espaço (ou seja, os cenários mudam conforme as ações do elenco), a linguagem que acompanha a cultura contemporânea e o fato de que o texto é mais descritivo em relação às ações dos personagens essenciais para o fluxo da história.2

Além disso, a história é recheada de situações dramáticas que envolvem mistério, intrigas, rivalidade entre irmãos, tentativas de assassinato, escravidão, prisão, humilhação, provações, resiliência, fidelidade, etc. Tudo isso é apresentado como acontecimentos naturais da vida humana sem qualquer explícita teofania ou intervenção divina.

A história de José também é significativa porque serve de ponte entre os patriarcas e o relato do Êxodo, uma vez que ela explica o motivo real da ida dos israelitas para o Egito e de sua escravidão ali. A propósito, a celebração do ritual da moderna Páscoa judaica é sempre iniciada pelo ato de mergulhar um vegetal chamado karpas (“linho”, “algodão”; cf. Et 1:6) em água com sal, o que, segundo os estudiosos da cultura judaica é uma referência ao mergulhar das vestes de José no sangue (Gn 37:34), ou seja, o objeto e o evento catalisador de tudo.3

Antes de chegarmos a esse momento, vamos retroceder um pouco. O capítulo anterior (Gn 36) é uma apresentação das gerações de Esaú e o seu estabelecimento na terra de Seir (36:1-8). Em outras palavras, o autor parece estar induzindo o leitor a pensar: “Essas são as bênçãos de descendência e terra prometidas a Abraão, agora conquistadas por Esaú. Mas, e quanto a Jacó? Assim, Gênesis 37 abre com a descrição de que Jacó habitava na terra de Canaã, mas a terra ainda não era sua possessão, além do fato de que sua prole não estava bem estabelecida, precisamente por existirem muitos problemas familiares. Ou seja, a partir de agora o foco dessa nova seção é apresentar o cumprimento das promessas de Deus a Jacó-Israel por meio da vida do personagem escolhido da vez – José. É por isso que um dos temas-chave dessa narrativa é que José é o escolhido (Gn 37:3). Ele é o filho preferido de Jacó e é o preferido de Deus para administrar a situação da fome e salvar Seu povo. Assim, Gênesis 37:1-11 introduz esse tema e o resultado disso para a história do protagonista e, consequentemente, para todo o Israel posteriormente.

Esse favoritismo de José, que ora é estampado em sua própria roupa ora pela descrição de seus sonhos, colocando-o em uma posição mais elevada do que seus irmãos mais velhos, conduziu a trama ao evento derradeiro de vendê-lo como escravo. A ação de seus irmãos primeiramente ao tentar matá-lo e, depois, vendê-lo, nos faz questionar como essas pessoas poderiam se tornar o povo de Deus? E a história seguinte não torna as coisas melhores.

Nesse ponto, precisamente, de clímax e transição, em que José sai de uma posição de príncipe em sua casa para a de escravo em uma terra muito distante, a narrativa é interrompida por outra história, criando um tipo de suspense. Uma espécie de “propaganda” que interrompe a cena marcante do enredo, um recurso que hoje é chamado de cliffhanger [momento de suspense], que é uma interrupção na trama do personagem em uma situação limite a fim de gerar tensão e expectativa intensa antes de apresentar o desfecho chocante que se segue. Porém, apesar de aparecer abruptamente como um recurso literário e de parecer deslocada do restante da história, o breve relato sobre Judá e Tamar serve igualmente para mostrar a falha de Judá em manter sua parte na continuidade da linhagem bendita de Deus. Resumidamente, o relato conta sobre filhos perversos, morte, ilegalidade, cilada, relações nora-sogro e um decreto de morte. É um emaranhado de pecados e resultados desastrosos em um curto relato do qual não parece ser possível tirar nenhuma coisa boa. Mas, na verdade, há algo bom aqui. Esse conto serve também para apresentar um personagem coadjuvante importante dentro da história de José: Judá. Pois foi Judá quem sugeriu vender José (37:26, 27). Ele se tornou o porta-voz dos irmãos (43:3-5, 8-10); igualmente foi ele quem intercedeu por Benjamin, oferecendo sua própria vida no lugar da dele (44:18-34); e, mais tarde, se tornou o filho-guia de Jacó para chegar ao Egito (46:28). Em outras palavras, foi a partir desse momento que Judá começou a ascender na história. Foi quando ele reconheceu seus erros e reformou suas atitudes que, apesar das falhas do passado, ele recebeu as bênçãos de Deus, a tal ponto que, por ações abnegadas e de arrependimento, ele, e não José, recebeu a bênção da primogenitura (49:8-12), que trouxe consigo a esperança da vinda do Messias libertador.

Em contraste com as ações corrompidas de Judá, que estava se aperfeiçoando, José é apresentado imaculado, um herói de caráter incorruptível. Ele foi colocado à prova e passou com louvor, mas as situações que se sucederam em sua vida não correspondem à justiça que ele merecia. Depois de ter sido vendido como escravo, foi acusado e preso injustamente. Quanto mais íntegro ele era, mais fundo ele caía no poço da injustiça. E apesar de tudo isso, o nome de Deus apareceu prontamente em sua boca em cada momento crítico: ao ser tentado sexualmente (39:9), ao interpretar os sonhos (40:8; 41:16), ao testar seus irmãos (42:18) e, finalmente, ao considerar o todo de sua própria história (45:7, 8). Com José aprendemos que as coisas só fazem real sentido quando do topo podemos observar o todo, mas só poderemos olhar o todo se conseguirmos chegar ao topo. E lá no topo, José entendeu que, em cada situação, Deus nunca o tinha abandonado, mas estivera o tempo inteiro preparando o terreno para que ele, um dia, pudesse ser quem ele se tornou.

Portanto, tudo isso foi permitido a fim de mostrar que Deus é capaz de tirar o bem do mal. Da perspectiva mais ampla que a Bíblia nos oferece, percebemos que: os irmãos de José tentaram torná-lo um escravo, mas Deus o transformou em “rei”; Judá cedeu às tentações sexuais de Tamar, mas José resistiu à sedução da esposa de Potifar. A nação de Israel, ainda em fase de crescimento, somente foi poupada porque Deus reajustou as más ações humanas em Seu favor – preservando Seu povo escolhido, bem como cuidando singularmente de cada pessoa de coração voluntário. Assim, enquanto grande parte do pecado envolto nessa história aponta para a graça de Deus em meio ao mal, a bondade de José aponta para o fato de que Deus pode levantar uma pessoa justa das piores situações.

Uma das mais importantes lições da história de José está no fato de que, apesar das dificuldades que todos enfrentamos na vida, devemos manter-nos fiéis à justiça e ao que é correto. Diferentemente dos três patriarcas, Deus não se revelou a ele pessoalmente (e essa é outra marcante característica dessa narrativa – a total ausência da intervenção divina direta), e ainda assim ele se manteve firme e fiel ao Deus de seus pais. E Deus Se manteve fiel a José em toda a sua vida, apesar das situações desagradáveis que lhe sobrevieram. No entanto, José revelou possuir um grande senso do cuidado divino e a certeza de que em tudo a mão condutora de Deus estava guiando os eventos aparentemente injustos e sem sentido da vida.4 Da mesma forma nós, hoje, não podemos dizer que temos uma revelação real de Deus em algum ponto da nossa vida, além do que entendemos pela consulta à Sua Palavra escrita. Como José, nossa narrativa também é sobre um servo que crê em Deus, cuja vida é repleta de problemas e, no entanto, o grande plot twist [reviravolta da história], quando finalmente veremos os “dias de glória” e seremos exaltados de servos/as a príncipes/princesas, depende unicamente da nossa maneira de reagir àquilo que enfrentamos hoje, sejam escolhas pequenas ou grandes. Como temos reagido? Como tem sido nossa consciência do cuidado divino? Entre o certo e o errado, somos parecidos com José?

Referências:

1 LONGMAN III, Tremper. Como Ler Gênesis. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 181.

2 É apenas uma sugestão, mas esse fenômeno pode significar que essa história estava mais próxima, em tempo e local, do autor do que as demais. Daí ser mais desenvolvida e extensa.

3 Cf. MOFFIC, Rabi Evan. “The Hidden Meaning of Karpas” in My Jewish Learning. Disponível em https://www.myjewishlearning.com/article/the-hidden-meaning-of-karpas/, acessado em 31/03/2022.

4 SARNA, Nahum M. Genesis. The JPS Torah Commentary. Philadelphia, PA: Jewish Publication Society, 2001, p. 257.